
"Um dos livros mais francos e radicais sobre a vida feminina, de todas as origens, em todas as partes do mundo.” THE GUARDIAN Esta ficção é baseada no relato verdadeiro de uma mulher que espera sua execução em uma prisão no Egito. Sua história chega até a autora, que resolve conhecer Firdaus para entender o que levou aquela prisioneira a um ponto tão crítico de sua existência. “Deixe-me falar. Não me interrompa. Não tenho tempo para ouvir você”, começa Firdaus. E ela prossegue contando sobre como foi crescer na miséria, sua mutilação genital, ser violada por membros da família, casar ainda adolescente com um homem muito mais velho, ser espancada frequentemente, e ter de se prostituir... até que, num ato de rebeldia, reuniu coragem para matar um de seus agressores, levando-a à prisão. Esse relato é um implacável desafio a nossa sociedade. Fala de uma vida desprovida de escolhas, mas que em meio ao desespero encontra caminhos. E, por mais sombrio que isso possa parecer, sua narrativa nos convida a experimentar um pouco dessa liberdade encorajadora através das transformações internas de Firdaus. O que acontece com ela é o despertar feminista de uma mulher. A AUTORA: NAWAL EL SAADAWI, 87, é uma escritora, ativista, médica e psiquiatra feminista egípcia. Saadawi foi presa pelo presidente Anwar al-Sadat em 1981 por supostos “crimes contra o Estado”. Ela escreveu muitos livros sobre as mulheres no Islã, e se dedica, em especial, à luta contra a prática da mutilação genital feminina no Oriente Médio. Nawal é tratada como “a Simone de Beauvoir do mundo árabe”. Seus livros já foram traduzidos para mais de 28 idiomas e são adotados em universidades do mundo inteiro. Seus discursos atualmente se concentram na crítica à tentativa de normalizar o que ela considera a opressão aos costumes das mulheres na África e Oriente Médio. Depois de quatro décadas da revolução islâmica, muitos já consideram normais as restrições aplicadas às mulheres, incluindo as próprias mulheres. “A Simone de Beauvoir do mundo árabe”. REUTERS

A Mulher Com Olhos de Fogo foi escrito nos anos 70. Mas, se me falassem que a história de Firdaus aconteceu ontem, no Egito, eu acreditaria. Vemos partes de seus relatos noticiados constantemente. A autora diz que a história é uma não-ficção criativa. Mas pra mim TUDO soou real.
Naquela época, a autora Nawal El Saadawi trabalhava como editora-chefe da Health, quando foi dispensada após uma publicação que, aos olhos do Ministro da Saúde local, era indevida. Então, Saadawi iniciou uma pesquisa sobre neurose em mulheres egípcias. A trilha a levou até um médico na Prisão de Qanatir, onde pôde conhecer a história de Firdaus, uma das prisioneiras que estava prestes a ser executada por ter assassinado um homem.
A terrível história de Firdaus marcou tanto Saadawi, que ela decidiu relatar tudo em um livro a parte ao da sua pesquisa. De início, Firdaus se recusou a vê-la várias vezes. Até que horas antes dos homens buscá-la para seu destino, ela decide relatar todos os abusos que sofreu ao longo da vida, a vida na prostituição e como aprendeu a ter voz e se impor em um local em que as mulheres sempre baixam a cabeça. Ela inicia o relato com os capítulos da sua infância, onde sofria com o má tratamento do pai e da madrasta.
Firdaus tinha vários irmãos. Ela comenta que pareciam uma ninhada de pintinhos. Porém, a comida muitas vezes era exclusiva ao seu pai; a madrasta chegava a esconder das crianças. Muitos de seus irmãos faleceram ainda pequenos, pelo frio ou pela fome. E quando era um menino que partia, a madrasta sofria com a violência do marido. Firdaus também lidou muitas vezes com a agressividade do pai, mas foi pelas mãos de sua madrasta que sofreu a mutilação genital. O único que não era agressivo, era seu tio. Ele até a inscreveu em uma escola. Mas, Firdaus passou anos vendada em relação ao comportamento dele e o significado de seu tom "carinhoso". E quando ele casou, ela já não servia mais pra ele.
"Então respondi ao homem da polícia que patriotismo não significava nada para mim, e que o meu país jamais havia me dado nada. Pelo contrário havia tirado de mim tudo o que eu possuía, incluindo minha honra e minha dignidade."
Antes de chegar a fase adulta, Firdaus se viu casada com um senhor asqueroso. O casamento foi arranjado pela esposa de seu tio, que não a suportava convivendo com eles. Não demorou muito até que ela começasse a ser agredida. Sem nenhum apoio do tio, resolveu fugir. A trilha de sua fuga a leva a homens piores. Uma mulher andando desacompanhada por aquelas ruas, era logo considerada uma prostituta; que seu corpo era disponível. Nenhum homem parecia querer lhe ajudar, apenas se aproveitar. Firdaus lutou para fugir de mais um abusador e foi quando conheceu Madame Sharifa, que lhe mostrou o mundo da prostituição.
Firdaus costumava exibir para todos seu certificado do Ensino Médio. Sempre sonhou que ele poderia lhe garantir um ótimo futuro e a faria obter respeito. Ela tentou trabalhar em uma empresa, e mais uma vez, um homem a deixava sem rumo. Quando retornou ao mundo da prostituição, se tornou uma dama muito requisitada, até de importantes figuras de autoridade. Com os anos, aprendeu a se impor e dizer não. Não baixava mais a cabeça e seu dinheiro lhe dava tudo que queria. Inclusive, teve seu próprio apartamento. Até que, anos mais tarde, cruzou com aquele que seria sua vítima.
"Houve também um soberano tão obcecado com tramas e conspirações que passava todo o tempo distorcendo os fatos da história e tentando enganar seu povo."
Horas antes de ser executada, Firdaus relata toda violência que sofreu ao longo dos anos, e quando resolveu revidar, teve que pagar com a vida. Uma moça que foi vítima do patriarcado e seu único sonho era ser uma mulher culta e respeitada. Nawal El Saadawi transmite perfeitamente cada emoção relacionada ao que se conta. Os momentos na escola transbordam de alegria; assim como nos momentos de apreensão transbordam o medo. Acredito que a única parte que lhe trouxe felicidade, foi realmente a escola.
A vítima de Firdaus não era um homem de boas intenções. Era uma escória que passou anos se aproveitando de várias mulheres. Mas ao silenciá-lo, Firdaus sabia que ninguém ficaria ao seu lado ou lutaria pela inocência dela. Ela simplesmente aceita seu destino. A narrativa não é daquelas que faz pausas para comentários do receptor. Afinal, ao iniciar, ela pede para não ser interrompida e é respeitada. O que foi bem construído, pois acredito que quebraria um pouco do seu propósito, que é senti-la em cada detalhe.
Há vários pontos marcantes, e isso não significa que sejam cenas bonitas. Quem evita leituras que abordam qualquer tipo de violência contra mulher, talvez não aprecie. Eu só fiquei curiosa para saber a reação do escroto do tio e a esposa, ao vê-la pelos jornais. Mas ao fugir, ninguém mais se preocupou com sua existência. Firdaus te deixará uma grande marca com seus ideais e opiniões sobre como enxergam a mulher.
"Eu tomei consciência do fato de que odiava os homens, mas por longos anos mantive esse segredo cuidadosamente escondido. Os homens que eu mais odiava eram aqueles que tentavam me dar conselhos, ou diziam que queria me resgatar da vida que eu levava. Eu costuma odiá-los mais do que aos outros porque eles pensavam que eram melhores que eu, e que podiam me ajudar a mudar de vida. Eles se enxergavam como algum tipo de heróis magnânimos - um papel que não fizeram nenhuma questão de desempenhar em outras circunstâncias."
A Mulher Com Olhos de Fogo é aquele tipo de leitura que levará um bom tempo para deixar seus pensamentos. A história de Firdaus ainda é comentada por muitos ao redor do mundo, incluindo escolas, que usam o livro de Saadawi como alvo de estudo. A autora nos presenteia com grandes passagens e no fim, nos deixa com aquele azedume, de que uma injustiça fora cometida.
A edição está bem caprichada, com uma ótima revisão e belo trabalho com a diagramação. A leitura pode ser concluída em poucas horas, dependendo de como sua mente vai absorver os acontecimentos. Eu não consegui terminar em um dia, pois precisava refletir. E quando pegava novamente, eu relia até o ponto parado e ficava mais um pouco com esta história. A narrativa inicia com o prefácio de Miriam Cooke, passando pela apresentação da autora e o relato. É dividido em três partes e a fonte é de ótimo tamanho. A capa é atrativa, com o título amarelo em relevo. O retângulo com a crítica não é adesivo, o que adorei. Por dentro das orelhas também está muito bonito.