Livro: Conectadas - Clara Alves

Ser uma garota gamer não é fácil. Principalmente quando um romance está em jogo. Raíssa e Ayla se conheceram jogando Feéricos, um dos games mais populares do momento, e não se desgrudaram mais ― pelo menos virtualmente. Ayla sente que, com Raíssa, finalmente pode ser ela mesma. Raíssa, por sua vez, encontra em Ayla uma conexão que nunca teve com ninguém. Só tem um “pequeno” problema: Raíssa joga com um avatar masculino, então Ayla não sabe que está conversando com outra menina. Quanto mais as duas se envolvem, mais culpa Raíssa sente. Só que ela não está pronta para se assumir ― muito menos para perder a garota que ama. Então só vai levando a mentira adiante… Afinal, qual é a chance de as duas se conhecerem pessoalmente, morando em cidades diferentes? Bem alta, já que foi anunciada a primeira feira de Feéricos em São Paulo, o evento perfeito para esse encontro acontecer. Em um fim de semana repleto de cosplays, confidências e corações partidos, será que esse romance on-line conseguirá sobreviver à vida real?

Até mentir dá trabalho mds...

Raíssa começou a ser influenciada pelo universo de games on-line quando tinha apenas catorze anos. Vamos dizer, em partes. Seu pai nunca fez questão de esconder o quanto se divertia, e a ajudou nesse processo. Raíssa logo se viu encantada pelo universo de Feéricos, um jogo recém-lançado pela produtora Nevasca. Um MMORPG que une pessoas de todo país, jogando e interagindo, além de interpretar um personagem. Naquela época, a animação de Raíssa durou pouco. Não demorou até que ela enfrentasse dificuldades para conseguir ajuda de outros jogadores durante as missões. Era um mundo divertido e viciante, mas também machista. Então, Raíssa decidiu reformular toda sua história, naquele universo, tornando-se apenas "alguém por aí". Foi quando ela conheceu Ayla.

Quando conhecera Ayla on-line, Raíssa levou a sério sua nova identidade. Era "alguém por aí" que não pretendia se revelar. Para Ayla, ela decidiu se apresentar como um garoto chamado Léo. Só que Léo existe, e é o melhor amigo de Raíssa. Ele ajuda manter a mentira, apesar de seguir incomodado com toda trama orquestrada pela amiga. Para complicar a situação, a Nevasca divulga um grande evento que pretende reunir os três! Nenhum deles está disposto deixar a oportunidade passar.

As duas moram em São Paulo, mas em diferentes localidades. Isso é o que tranquiliza Raíssa e muito. Depois de meses trocando mensagens, e ajudando Ayla durante as missões, é claro que a gamer acabou apaixonada. Porém, Raíssa se vê lidando com o terrível medo do preconceito ascender ao seu redor; não sabe como entrar nessa conversa com seus pais. Como muitos de nós, Raíssa sempre ouve comentários asquerosos por meio de outros parentes, e também na escola. O medo está sempre alfinetando sua autoestima, então decide continuar ocultando a verdade de Ayla.

Enquanto a família de Raíssa ~talvez~ tenha um tom mais conciliador, na casa de Ayla as coisas não andam tão bem. Seus pais não se falam desde que um grande segredo do patriarca fora revelado, o que deixou certa amargura na personalidade de sua mãe, e Ayla sofre com a dureza dela. A jovem foi obrigada a mudar de escola, e por não gostar, resolveu se rebelar. Ayla sabe que será praticamente impossível obter a permissão de sua mãe para ir até o evento, além de toda questão financeira. Mas quem tem amigas tem tudo, né? E Ayla ainda conta com uma fada madrinha maravilhosa: sua tia Sayuri.

Quando o grande dia chega, Raíssa está animada para apresentar seu cosplay, evitando ao máximo qualquer contato com Ayla; Leo não faz ideia de como agir com a menina, seu único interesse é aproveitar a feira; Ayla está super esperançosa para conhecer a figura que a compreendeu tão bem durante tantos meses. Nem preciso dizer que há vários encontros e desencontros nos planos de Raíssa, né? E talvez, ela só precise de umas belas horas para deixar seus belos sentimentos dominarem.

"Com doze anos, quando ganhei meu primeiro computador, comecei a assistir Grey's Anatomy. Foi a primeira série que assisti on-line, sozinha, sem medo dos meus pais passarem pela sala e me encontrarem vendo alguma cena constrangedora. Foi aí que apareceu a Callie Torres."

Eu nunca fui dessas de jogos on-line. A não ser que Paciência conte. Ha! Nesse ramo, sou mais old school mesmo, meu favorito sempre foi Mortal Kombat - enfio antigo Sonic também - que até me disponho a jogar atualmente, se tiver oportunidade. Mas houve uma fase na vida do meu irmão, que ele se tornou obcecado por um jogo on-line, então isso ajudou bastante a me inteirar com a leitura. Quero deixar claro que os termos não tomam toda narrativa, boa parte aparece nas breves trocas de mensagens entre elas.

Raíssa não começou essa mentira por maldade. Ela queria se proteger e não imaginava o quão forte se tornaria essa conexão com Ayla. As duas passam horas conversando, além dos jogos, assistem filmes - eu fazia isso na época do MSN sdds -, trocam figurinhas sobre livros e outras coisas. Desabafam sobre problemas do cotidiano, vivem se divertindo com o gatinho de Raíssa... Mesmo com pouco tempo, foi suficiente para as duas desenvolverem grandes sentimentos pela figura uma da outra. Mas uma hora a verdade precisa ser dita, afinal os sentimentos de Ayla também precisam ser respeitados. E acredito que seja um ponto maior do medo de Raíssa.

De cara, minha favorita foi a Ayla. Talvez tenha sido pelo ar problemático em casa ou a mãe ser meio durona. Não sei. Simpatizei tanto com ela, que perto do fim até derramei umas lágrimas em algumas de suas cenas. Quem mexer com ela, mexeu comigo. Hunf! Raíssa é super agitada, ela já é mais calma. Ayla tem um jeito adorável, romântico e muito madura. A autora apresenta um ar mais consciente em sua construção, com a questão do vegetarianismo. E Ayla também nos conta um pouco do que sabe da cultura de sua família paterna, de descendência oriental.

"Eu não queria desistir tão fácil. Mas chega um momento na vida em que é preciso aceitar a derrota antes que a frustração te consuma. Tem coisas que simplesmente não são para acontecer. Tipo eu descobrir uma herança que acabaria com todos os meus problemas financeiros.

O romance é populoso, e vocês sabem que eu adoro. Raíssa tem os amigos dela, assim como Ayla também tem suas amigas. Me soou que pode haver continuações focadas nessas pessoas, principalmente Léo e Gabi, os dois amigos de Raíssa. Outra relação que curti foi a de Raíssa com seu pai. Na verdade fiquei com inveja mesmo. A escrita de Clara Alves é bem jovial, repleta de referências da cultura atual, e há pontos para nos divertir, refletir e também nos emocionar. Sério, aquela parte final, com referência à uma cena de Orgulho e Preconceito, foi uma das coisas mais bonitas que li esse ano.

A troca de mensagens entre elas acaba por chamar atenção entre os capítulos. Sempre focam em partes importantes dos tantos meses que elas se conhecem, se conectando com algo que está em relevância no capítulo em questão. É ótimo pra entender o sentimento de cada uma, ainda mais quando o evento da produtora chega. Aqueles que são mais ávidos, que querem que a verdade seja dita loooogo, talvez se estressem com a demora dos "pratos limpos". Gostei de como foi a revelação, pois Raíssa tem plena certeza que está no controle. Só que não.

Conectadas é um romance adorável. Dizer pra vocês que nas primeiras páginas não imaginei o quanto ia me conquistar, chegando a favoritar, mas conforme fui avançando e simpatizando com a construção das meninas - e o cenário ao redor - foi me ganhando aos poucos. Daí vieram as cenas que me emocionaram. Não vou mencionar porque seria spoiler. O final é lindinho demais, ainda com um epílogo pra gente aproveitar ainda mais o ar romântico. E gente, sério: Quem nunca assistiu Dirty Dancing?

"- As pesquisas dizem que quanto mais tempo você passa decidindo uma coisa, maior a probabilidade de se arrepender."
- Que pesquisas?
- A que eu fiz com minhas amigas."

"Eu precisava contar a verdade para a Ayla.
Enquanto conversava com ela ali, naquela sorveteria, dando conselhos sobre ser quem ela era e não se importar com o quanto isso podia decepcionar ou frustar outras pessoas, percebi que eu mesma não estava seguindo meu próprio conselho. Foi como se, de repente, eu começasse a perceber quão tristes tinham sido os últimos anos da minha vida. Todos os meus medos, minha falta de amor-próprio, a pressão constante de ter que esconder quem eu era do mundo. Mas por que eu deveria esconder?"

Edição lida em e-book, através da plataforma NetGalley, porém eu consegui dar uma olhada na física e está bem legal, principalmente o cuidado nas partes das mensagens entre elas. Certeza quando eu puder, comprarei o físico. Essa capa? Nem preciso comentar o quanto está linda! A editora sempre apresenta ótimo cuidado com suas publicações. A narrativa é em primeira pessoa, dividida entre as duas. Apesar da minha implicância com o uso do artigo definido antes dos nomes próprios. É um gosto meu, já comentei aqui várias vezes que me deixa nervosa. Daria até pra relevar, por ter dois "Léos" na história, mas é constante; com todos personagens.

Nas páginas finais, o leitor ainda pode acompanhar uma entrevista bem bacana com a autora. E a quem interessar, a autora tem várias publicações disponíveis na Amazon, e que também estão no Kindle Unlimited.


Autora: Clara Alves
Origem: Literatura Brasileira
Editora: Seguinte
ISBN: 9788555340895
Publicação: 2019
Páginas: 320
Série: ?
O Que Tem?: LGBTQ+, Pega na Mentira, Amizade, Gandalf



O Canto Cultzíneo agradece à Companhia das Letras (Seguinte) por ceder o exemplar para análise


CONFIRA TAMBÉM NAS LOJAS ABAIXO:

Comentários

  1. Que amorzinho puro, sério!!!!
    Eu adorei Dirty Dancing, mas nossa que enredão! hahaha
    Esse negocio de se passar um por outro fica tão cara de filme... Mas acho que ja vi algo na vida real assim, viu? Mas não acabou bem rsrsr

    Beijocas da Pâm
    Blog Interrupted Dreamer

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  2. Oi Nana!

    Ah! Que saudades de jogar Mortal Kombat, Street Fighter e os clássicos do Super Nintendo (rs...).

    Confesso que a principio esse livro não tinha chamado muito a minha atenção, e a sua é a primeira resenha dele que estou lendo.

    Achei interessante a temática da história e o fato da autora ter abordado questões mais conscientes como o vegetarianismo na narrativa.

    Se tiver a oportunidade vou dar uma chance ao livro.

    Beijos;***
    Ariane Reis | Blog My Dear Library.

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  3. Oi Nana! Não tinha dado tanta atenção para a obra quando vi o lançamento, mas lendo sua resenha me pareceu ser uma história bem adorável e com personagens cativantes. Eu vou tentar ler assim que for possível. Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  4. Oi Nanaaaaa,
    Eu também não jogo nadinha, paciência ou rouba monte, SÓ. HAHAHAHAHA
    E vou falar que mesmo vendo as resenhas e o barulho que a editora está fazendo, eu não fiquei tãoooo animada em lê-lo. Não sei... Quem sabe mais para frente...
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com

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  5. Oi Nana! Eu particularmente tenho certa dificuldade em ler livros com personagens muito jovens, não são todos que conseguem me agradar. Mas a premissa é tão boa que eu já estou encantada com as protagonistas!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  6. "A que eu fiz com minhas amigas" AHAHAh eu amei essa parte, parece eu com as minhas amigas :B Não conhecia o livro nem a escritora, mas e pareceu ser super fofinho e eu fiquei morta de curiosidade para saber como foi toda a revelação e tal.

    um beijo,
    gabi ramalho

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  7. Oi, Nana!

    Primeiramente, adorei a capa, achei uma graça! E a premissa também é super legal e bem moderna, falando de jogos online, algo bem comum, e é mais bacana ainda ver que são duas garotas e que as mulheres também estão se integrando mais nessa área. Já imagino que acontece vários rolos por ela mentir ser um garoto, parece eu na época dos fakes que ninguém fazia menor ideia de quem eram os offs HAHAH mas e aí, elas ficam juntas no final?? Fiquei curiosa!

    xx Carol
    https://caverna-literaria.blogspot.com/

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  8. Oi Nana!
    Quantas referências nessa história né? hahah
    Provavelmente eu sou uma que iria me irritar com a demora nas mentiras, rs
    Ps: EU NÃO ACREDITO q vc foi na Bienal e não me falou nada #xatiada 😢
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

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  9. Oi, Nana!
    Meu Deus, isso me lembrou MUITO a época dos fakes no Orkut hahahaah socorro! Eu gostei muito da premissa do livro, acho que por me identificar um pouco, pois aconteceu algo bem parecido comigo hahaha Deixei anotado e espero gostar também.
    Beijinhos,

    Galáxia dos Desejos

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  10. Olá, Nana.
    Eu nunca joguei on line mas já fui muito viciada em The Sims. Minha mãe tinha que brigar comigo para eu sair do jogo hehe. Eu achei o livro bem interessante e confesso que se fosse eu no lugar da Ayla não sei se ia entender ser enganada assim não hehe. Se der eu vou ler ele.

    Prefácio

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