Livro: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão - Martha Batalha

Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar. Mas nenhuma das duas parece muito feliz nas suas escolhas. A realidade das Gusmão é parecida com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro nos anos 1920 e criadas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós, bisavós; invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar as próprias vidas, mas que agora são as personagens principais do primeiro romance de Martha Batalha. Uma promessa da ficção brasileira que chega afiadíssima para contar uma infinidade de histórias bem costuradas e impossíveis de largar.
Quem era ela para ler autores complicados e para escrever algo além de receitas de bolo?

A maior parte da curiosidade em relação a esse livro acaba por surgir devido ao lançamento de sua adaptação, este mês, nas salas nacionais. E né, está representando o Brasil na escolha dos indicados ao Oscar. Depois que li a sinopse, e parte das resenhas, fiquei ainda mais animada para conhecer a narrativa de Martha Batalha e, também, as irmãs Eurídice e Guida.

As duas descendem de portugueses e cresceram nos arredores de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. A narrativa se passa nos anos 40, com Eurídice já casada com Antenor, mas a autora explora outros pontos - anos anteriores e posteriores - e outras vidas que cruzam a vida das irmãs. A prosa é crítica e sarcástica, pois é do ponto de vista de um narrador da classe média daquela época - em que o racismo era tão normal como receber um bom dia na quitanda. Assim como o machismo e muitas esposas silenciadas.

Guida é a irmã que aproveitava a pouca liberdade que tinha. Com amigas ia ao cinema, gostava de ler revistas e livros. Até que conheceu Marcos, que a levou a fugir de casa ainda nova. Mais tarde, ela é abandonada - grávida - por ele e precisa reconstruir a vida ao lado do filho. É aí que conhece Filomena e o poder de ser dona de si.

Eurídice tinha uma amiga: Guida. Ela também tinha sonhos que sempre pareciam descabidos para qualquer um a sua volta. Queria se dedicar a flauta. Depois, queria publicar um livro de receitas. Daí queria trabalhar com costura. Pedidos negados ou debochados pelos dois homens de sua vida: seu pai e seu marido. Tantos anos de casamento, o marido nunca a deixa esquecer o fato de não ter sangrado, em sua primeira vez, na lua de mel deles. A casa está sempre impecável, com horas respeitadas, e as crianças bem cuidadas.

As duas seguiram suas vidas, amadurecendo e criando outros laços. Quando Guida partiu, o relacionamento entre elas estava estremecido. Ela já não socializava com os pais e a irmã e parecia querer distância de todos. Eurídice nunca perdera as esperanças de reencontrá-la - algum dia - até que Guida bate à sua porta.

"Sozinha na cama, corpo escondido sob o cobertor, Eurídice chorava baixinho pelos vagabunda que ouviu, pelos vagabunda que a rua inteira ouviu. E porque tinha doído, primeiro entre as pernas e depois no coração."

O livro é bem curto, então preciso entregar uma resumida básica. A publicação dele foi negada várias vezes por aqui, e a autora acabou editando bastante. Mas há outros personagens apresentados, além das irmãs, que o narrador faz questão de despir suas vidas, de como deixaram suas marcas naquela época; positivas ou negativas ou os dois. É estranho afirmar "naquela época" quando se sabe que nos dias atuais alguns feitos grosseiros não mudaram.

Acredito que, no início, as duas até poderiam compartilhar algumas similaridades na personalidade. Mas tudo mudou quando Guida começou a se isolar e saiu de casa. Naquele momento, Eurídice valorizou o termo "perfeição" e seguiu sendo a filha e esposa perfeita. Triste é que, com tempo, suas vontades começariam a falar mais alto. E é ainda mais triste ter que adormecê-las; assistir Eurídice se tornar invisível ao longo das páginas, ignorando seus desejos, é revoltante.

O narrador - um personagem desconhecido, será? - descreve o cenário de forma magistral, que é impossível não se vê em cena na época descrita. Vários locais do Centro do Rio, que conheço, com um olhar diferente. Representando uma classe superior, suas descrições criticam, mas também incomodam, pois é uma maneira de expor parte dos problemas sociais e políticos da época. Há até quem se comporte como se ainda estivesse numa monarquia. Por fim, dá espaço ao bom humor da autora, o que torna a leitura ágil e proveitosa.

"Até que a profecia da mãe de Zélia se realizou. A menina passou por duas tragédias na vida, que a fizeram parar de trotar. A primeira foi a morte do pai. A segunda foi a descoberta de que era feia."

Como mencionado, há outros personagens pela história que o narrador faz questão de entrar em suas vidas dando pitacos com seu olhar superior. Destaques para dona Zélia, a típica vizinha fofoqueira que aumenta tanto que inventa - eita, que conheço umas iguais, viu; Filomena, minha coadjuvante favorita; também das Dores, a empregada de Eurídice; Antenor e Marcos eu queria que tivessem sofrido alguma coisa. Nem um bondinho pra passar por cima. E preciso falar de Chico, filho da Guida, um dos poucos homens que gostei nesta história. O arco dele é tão bonitinho. Perdeu algumas pessoas no início, mas no fim ganhou um monte pra chamar de família.

Apesar do bom humor que transmite a cada parágrafo, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é sim uma leitura um tanto que revoltante. Como mulher, sendo filha mais velha, sempre soube que meu irmão era o favorito em casa. Quantas vezes questionava o fato dele nunca fazer nada, e meus pais me silenciavam. Tantas coisas que vi meu irmão fazendo, que sempre refleti do lado oposto: e se fosse uma atitude minha? As ideias malucas dele sempre espalhadas com orgulho, as minhas tachadas de perca de tempo. Homem sempre tem a palavra final, até quando só respira.

"Por que naquele dia na feira chamaram sua mamãe Guida de mulher da vida, e por que sua mamãe ficou brava quando ele perguntou qual era o problema em ser uma mulher da vida, já que todas as mulheres eram da vida, e não de morte?"

Edição lida em e-book, cedido pela editora através da plataforma NetGalley. Eu estou muito encantada com essa capa. Arte linda, belas cores utilizadas que, de alguma forma, me lembram a Eurídice. A capa internacional também é bem bonita. Ótima revisão, espero conhecer a outra obra da autora futuramente, também.

*Adaptações:

- A Vida Invisível (2019) | Direção Karim Aïnouz e roteiro junto de Murilo Hauser e Inés Bortagaray
. Eurídice é interpretada por Carol Duarte e Fernanda Montenegro
. Guida é interpretada por Julia Stockler
. Escolhido para representar o Brasil no Oscar 2020
. ACLAMADÍSSIMO (clique aqui) | Trailer


Autora: Martha Batalha
Origem: Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9788535927061
Publicação: 2016
Páginas: 192
Série: Não
O Que Tem?: Ficção Adulta, Rio de Janeiro, Anos 40, Irmãs

LinksSkoob - Compre Físico - Compre E-bookSite da Editora - Site da Autora
O Canto Cultzíneo agradece à Companhia das Letras por ceder o exemplar para análise


CONFIRA TAMBÉM NAS LOJAS ABAIXO:

11 COMENTÁRIOS

  1. ja pela capa me chamou bastante a atenção... bacana ser escrito com bom humor mas realmente essa temática de que o homem tem sempre a ultima palavra é mesmo revoltante

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  2. Oi, Nana

    Mulher, tô chocada que o livro é curtinho assim! Tá certo que eu nem tive curiosidade de pesquisar antes, mas eu não imaginava que fosse ser uma história tão enxuta. Acho que se passei o olho nessa quantidade de páginas nem prestei atenção. Enfim...
    Olha, confesso que estou meio chocada da adaptação deste livro ter sido escolhida para representar o Brasil e não Bacurau... mas o que eu entendo de cinema, né? Hahahahhahaha Será pela dona Fernanda??
    Tava pensando aqui que se eu tivesse vivido nos tempos de antigamente eu tava era lascada, pois também não sangrei na minha primeira vez. E de pensar que algumas mulheres eram até mortas por uma coisa involuntária dessas...
    Essa é uma leitura que eu quero fazer, mas vai ficat pra depois. Tenho algumas - muitas - pendências que preciso sanar primeiro. Mas será lido!!!

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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  3. Também sou mulher e irmã mais velha e acho que teria o seu mesmo olhar sobre a obra, chegando até a me revoltar um pouquinho em alguns momentos. Espero ter a oportunidade de ler a obra antes de assistir ao filme do qual to bem ansiosa.

    Abraço,
    Larissa | Parágrafo Cult

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  4. Olá, Nana.
    Eu não tinha ouvido falar dessa história ainda. Nem do livro nem do filme que sou por fora hehe. Mas fiquei bastante interessada nele. Hoje em dia apesar de termos muita coisa pelo o que lutar ainda, se formos ver como era antigamente a mulher está no céu hehe.

    Prefácio

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  5. Oi Nana,
    Eu ia dizer que sou desatualizada, mas a verdade é que não sou tão ligada em cinema nacional, então ver esse livro aqui foi mais que uma dica, foi uma explicação sobre o que está por vir no Oscar e que se eu gostar, posso até ler o livro, que é bem curtinho!
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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  6. OI Nana! Eu não tinha visto o livro ainda e nem sabia da adaptação, mas sei que é o tipo de história que me deixa nervosa. Valeu pela dica. Boa semana.
    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  7. Oi Nana, tudo bem?
    Apesar de lá em casa não rolar tanto o rolê do favoritismo, por ser mulher eu era cobrada de coisas que meu irmão não era, e ficava revoltada. Imagino que sentiria o mesmo lendo esse livro, porque se o machismo é pesado hoje, imagino na década de 40...
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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  8. O
    confesso que nem conhecia o livro, mas pelo que falou a história chamou minha atenção e parece ter personagens bem interessantes, já é bom saber que vai ter filme, quem sabe pelo menos o filme eu assista.

    http://momentocrivelli.blogspot.com/

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  9. Fiquei feliz que a Editora cedeu a edição para você ler em ebook, muito bom quando lemos e curtimos a história. Eu não conhecia o livro mas, me pareceu interessante, estou tentando não colocar nenhuma leitura nova na fila dos livros que pretendo ler mas, quem sabe em breve eu leia esse também.
    Beijocas.

    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

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  10. Amei conhecer esse livro, Nana. Gosto muito de histórias assim, elas são sempre marcantes e reflexivas. Essa entrou para a minha lista de desejos! ❤

    https://www.kailagarcia.com

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  11. Olá...
    Adorei sua resenha!
    Fiquei com muita vontade de ler esse livro, os fatores que compõe o enredo parece tornar a leitura bem interessante... Gostei bastante de seus comentários!
    Dica anotada!
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com/

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Olá, sejam bem vindxs :D
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