Livro: Vozes do Joelma - Vários Autores

Marcos DeBrito, Rodrigo de Oliveira, Marcus Barcelos e Victor Bonini são autores reconhecidos pela crueldade de seus personagens e grandes reviravoltas nas narrativas. As mentes doentias por trás dos livros A Casa dos Pesadelos, O Escravo de Capela, Dança da Escuridão, Horror na Colina de Darrington, Quando ela desaparecer, O Casamento, Colega de Quarto, e da série As Crônicas dos Mortos, se uniram para criar versões perturbadoras sobre as tragédias que ocorreram em um terreno amaldiçoado, e convidaram o igualmente perverso Tiago Toy para se juntar na tarefa de despir os homicídios, acidentes e assombrações que permeiam um dos principais desastres brasileiros: o incêndio do edifício Joelma. O trágico acontecimento deixou quase 200 mortos e mais de 300 feridos, além de ganhar as manchetes da época e selar o local com uma aura de maldição. Esse fato até hoje ecoa em boatos fantasmagóricos que envolvem a presença de espíritos inquietos nos corredores do prédio e lendas sobre lamúrias vindas dos túmulos onde corpos carbonizados foram enterrados sem identificação. Algo que nem todos sabem, é que muito antes do Joelma arder em chamas no centro de São Paulo, o terreno já havia sido palco de um crime hediondo, no qual um homem matou a mãe e as irmãs e as enterrou no próprio jardim. Devido às recorrentes tragédias que marcaram o local, há quem diga que ele é assombrado por ter servido como pelourinho, onde escravos eram torturados e executados. E sua maldição já fora identificada pelos índios, que deram-lhe o nome de Anhangabaú: águas do mal. Se as histórias são verdadeiras não se sabe... A única certeza é que a região onde ocorreu o incêndio tornou-se uma mina inesgotável de mistérios. E, neste livro, alguns deles estão expostos à loucura de autores que buscaram uma explicação.
Eu não era nascida em 1974, mas imagino a comoção pelo caso na época e como deve ter ficado por meses nos meios de comunicação. Só o fato da gente pesquisar, e ler toda cronologia dos fatos do dia 1º de Fevereiro, daquele ano, a sensação já se faz perturbadora, imaginando o quanto os mais de 150 mortos devem ter lutado pela sobrevivência.

Em Vozes do Joelma, quatro autores nacionais de grande sucesso da Faro Editorial se reúnem para nos apresentar contos horripilantes ambientados naquele solo e proximidades. Há toda uma lenda macabra envolvendo o local desde antes o surgimento do edifício em questão. Eles ainda convidaram o autor Tiago Toy para dar voz ao ser que nos apresenta todos os feitos funestos expostos por aqui, trazendo reflexões de arrepiar. É, lembra Contos da Cripta com o personagem do Guardião lá. A série Creepshow, que estreou esse ano, meio que usa ele também.

Como são apenas quatro contos, decidi resumi-los para aguçar a curiosidade de vocês:


OS MORTOS NÃO PERDOAM - MARCOS DEBRITO
Esse se passa anos antes do incêndio, mas também é baseado em eventos reais.  Um caso que ficou conhecido como O Crime do Poço, nos anos 40. Acaba por acrescentar à todas teorias envolvendo o solo do lugar e arredores; como algo maligno.

Pablo é o homem da casa. É ele quem paga as contas, compra os remédios da irmã doente e coloca parte da comida na mesa. Ele mora com a mãe e as duas irmãs, sabendo o quanto elas podem ser conservadoras e ofensivas. Começando pela maneira como se referem a sua namorada, por acreditarem que a moça não é mais virgem. Mas é com quem o rapaz idealiza casamento. As brigas são constantes. Pablo sempre acaba remoendo ainda mais seu ódio por elas.

Cada dia mais apaixonado, Pablo começa a priorizar sua nova vida ao lado da amada, deixando de comprar os remédios da irmã para presenteá-la. Motivo para mais uma explosão com a família. Sua mente não suporta mais. Ele trabalha no departamento de Química na universidade, e lá começa a testar parte de seus planos. Por fim, a decisão é tomada: para ser feliz, precisa matá-las.

Escolha excelente para o início deste livro. Há antologias que a gente pega por aí, já começam com contos desagradáveis que nem dá vontade de continuar, né? Mas Os Mortos Não Perdoam só fica desagradável com as ações odiosas de seu protagonista, pois todo o cenário após as ações do rapaz é bem descrito; sua tormenta e assombrações. Minha experiência com Marcos é de apenas uma leitura, mas posso dizer que o autor fez uma ótima adaptação do caso, principalmente aproveitando o limite que tinha para uma boa construção dos sentimentos odiosos de Pablo.

Pablo almejava a felicidade após livrar-se delas, mas mal sabia que o terror só estava começando. Mal sabe se encaixar nas próprias mentiras.


NOS DEIXEM QUEIMAR - RODRIGO DE OLIVEIRA
O conto do Rodrigo se passa horas antes do incêndio acontecer. Sim, dentro do próprio Joelma. Há uma equipe trabalhando. Alguém ali está ambiciosa com um cargo, descobrindo um colega de trabalho como o grande inimigo.

Samara é uma mulher conhecida pelo seu pulso firme em ambiente de trabalho. Sempre fora muito disciplinada e, claro, também almeja grandes glórias pelo que faz. Por um triste acaso, acaba por descobrir um segredo repulsivo sobre seu colega de trabalho, Gabriel, que é tão exemplar quanto ela. Ambos não simpatizam um com outro, por causa do ar da disputa. Sem duvidar e/ou questioná-lo, Samara chama a polícia.

Gabriel não sabe o que fazer. Seu ódio por Samara atinge um novo nível. Ele tenta de todas as maneiras escapar das mãos dos policiais que entram no prédio. A fuga de Gabriel é interrompida... pela sua morte. Mas não pense que a história acaba. O inferno de Samara está apenas começando.

Bom, se você acompanha o blog sabe que uma certa série de zumbis foi super indicada por aqui. Nos Deixem Queimar é marcado por vários momentos eletrizantes e arrepiantes, assim como As Crônicas dos Mortos. Tons que, certamente, Rodrigo não deixaria de fora. E, nossa! Quem imaginaria que todo confronto caminharia até o incêndio, que também transmite todas as sensações super bem descritas, nos deixando com os nervos à flor da pele. Toda revolta de Gabriel, vida e pós-morte, e a tormenta de Samara acabam em uma triste reviravolta. Nossos olhos nos pregam grandes peças.

E há várias situações adaptadas do caso real.


OS TREZE - MARCUS BARCELOS
Será que posso falar que esse também é baseado em fatos sem deixar vocês assustados? Principalmente quem mora em São Paulo... será?

Uma coisa que adorei nessa antologia é que os contos soam conectados uns nos outros sem forçarem. A editora fez ótimas escolhas na ordem. Esse e o anterior nos mostram bem essa ideia. Mencionei que no conto anterior há a abordagem do incêndio, com a descrição do autor caminhando até eventuais vítimas fatais. E uma cena importante que ele descreve durante a corrida pela sobrevivência: um elevador ocupado por treze pessoas que espatifou-se.

O conto é um relato de um senhor chamado Amilton, que na época do incêndio se tornou conhecido no bairro por ser um faz-tudo. Mas não significa que tinha boas recomendações de todos, pois o dinheiro vinha sempre na frente. Até que a perda de sua mãe o levou ao cemitério São Pedro, tempos antes do incêndio no Joelma acontecer.

No cemitério, ainda rapaz, conheceu seu Ernani, que infelizmente guardava más impressões em relação as atitudes de Amilton. A paz foi selada, então Amilton começou a trabalhar no cemitério para ajudar a custear o enterro da senhora sua mãe. Logo o tempo passa, o incêndio acontece, e cabe a Amilton a lidar com as treze vítimas que, pelo estado dos corpos, não havia como fazer a identificação.

Amilton os enterra um ao lado do outro. Noite vem e vai, e o cemitério já não é mais o mesmo. Os relatos de outros profissionais locais iniciam, alguns até temem que seja uma aparição de el Cucuy, o bicho-papão. As treze almas desejam passar uma mensagem, que só Amilton poderá descobrir.

Os dois anteriores lidam mais com o ódio; um personagem movido por ele. Minha impressão de Os Treze é que há uma certa lição para seguirmos em frente, descansar o passado, sabem? A mágoa é um grande sentimento que marca o conto. Mas não quer dizer que não tenha perigo e medo. Também há certo bom humor com a menção ao Cucuy e o rapaz mexicano. E o autor adora assombrações, né? É o único conto com final, digamos, feliz.

Meu conto favorito, junto com o do Rodrigo.


O HOMEM NA ESCADA - VICTOR BONINI
Acredito que o cenário deste conto seja o dias atuais, pela menção a tecnologia e algumas redes. Ele parte mais da criação do autor, em vista que não é baseado em algum acontecimento no local ou próximo. Contamos com uma assombração bem vingativa por aqui.

Dona Solange mora com a filha em um prédio ocupado ilegalmente, situado onde era o Joelma. Todos ali obedecem as ordens do líder. O braço direito do cara que é o grande problema na vida de Solange. Sua filha, Eugênia, vive um relacionamento altamente abusivo com o rapaz. A mãe, desesperada, não aguenta mais assistir toda violência contra a filha. Até que uma figura na escada do prédio decide ajudá-la.

Uma morte. Solange sabe que é só esconder todas as evidências que tudo ficará bem. Mesmo que questionem sobre o sumiço do rapaz, a filha chore pelo retorno do embuste, a senhora entregará a melhor resposta possível. Duas mortes. O desespero começa a tomar conta de sua mente. A filha corre perigo, ela também. As gratificações sanguinárias não foram por bondade, e agora alguém vem cobrar.

Oh, pobrezinha da dona Solange. Cancela esse tipo de pensamento. Dona Solange é daquelas personagens do Victor que sempre escondem um ladinho maligno. Então, nem se espante ao saber que todas as mortes que acontecem por aqui, ela dá um jeitinho de se livrar jogando no vácuo do elevador. Ela é de opiniões ofensivas e preconceituosas. E falando do vácuo do elevador... que nossa, grotesco!  A narrativa vai revirar seu estômago.

No geral, eu adorei todos os contos. Meu único problema foi com O Homem na Escada, pelo fato do início soar um pouco confuso. Retornei as páginas iniciais, para enfim me dar conta que a narrativa era linear; sem lembranças ou devaneios. Por outro lado, gostei do autor ter dado uma linguagem informal aos moradores do prédio. Sei que vários leitores tem certo preconceito com isso, por não ter concordância e ter gírias. Avisando pra deixar claro, que não é erro de revisão, mas sim parte da construção dos personagens.

É o maior conto do livro.


Não poderia deixar de comentar sobre o misterioso ser que introduz e reflete as ações em cada conto apresentado: o nefasto e sarcástico Devorador de Almas, construído por Tiago Toy. A escrita se faz de um belo tom elegante em torno do personagem, numa linguagem mais ornada. É um dos meus pontos favoritos da leitura. O autor conta com algumas publicações pela Amazon, focando bastante no estilo.

Vozes do Joelma veio para abrilhantar ainda mais o estilo na literatura nacional. Os autores se firmam em todos os contos, assim despertando interesse em procurar por suas demais obras. Que indico todas, viu? E foi ótimo notar saídas da zona de conforto, mostrando que temos grande talentos por aqui. Sabem o que seria lindo? Assistir adaptações de todos os contos. E para aqueles que ficam com pé atrás quando se trata de contos, todos aqui são finalizados direitinho, viu?

A edição está linda. Faro, como sempre, respeita o trabalho e criação dos autores, ilustrando uma parte de seus contos. A imagem do cemitério me deixou um pouco nervosa. As partes com a narrativa do Devorador de Almas são em páginas negras com escritos em branco. Capa traz imagem que foi um marco em todos os noticiários na época do incêndio. Sim, algumas pessoas realmente se jogaram do prédio. Há certo relevo e brilho. Notei alguns errinhos, mais de digitação mesmo, que certamente irão ser corrigidos nas próximas edições, e não acredito que atrapalhe o rendimento da leitura.


Autores: Marcos DeBrito, Rodrigo de Oliveira, Marcus Barcelos, Victor Bonini e Tiago Toy
Origem: Literatura Brasileira
Editora: Faro Editorial
ISBN: 9788595810884
Publicação: 2019
Páginas: 288
Série: Não
O Que Tem?: Edifício Joelma, Contos, Terror, Treze Almas

Nana Barcellos

10 comentários:

  1. Oi Nana, tudo bem? É uma obra que mexeria muito comigo que moro em prédio e perto do edifício Joelma, então eu resolvi passar, mas a edição parece linda mesmo!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  2. Oi Nana! Eu soube sobre o Joelma quando saiu este livro, antes disso não sabia sobre o incêndio. Sobre a obra, o conto do Rodrigo é meu favorito, parecia que a história estava viva, acontecendo em tempo real. Os outros também são bem legais. Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  3. Oi Nana,
    Não tenho o que falar da edição também, está muito bem feita.
    Eu estou com o livro aqui para ler e espero gostar da trama, pois vou sair da minha zona de conforto rs.

    Bjs
    http://diarioelivros.blogspot.com

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  4. Que sombrio! Parece ser incrível esse livro, ainda mais por ter algumas coisas intimamente relacionada com o real. Sua resenha está incrível!
    Jardim de Palavras

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  5. A reunião de informações que esse livro tem é muito boa, todas as resenhas que li dele me deixaram ávidas para ler.

    Beijos

    Imersão Literária

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  6. Olá, Nana.
    Eu estava com as expectativas nas alturas para esse livro e amei ele. Todos os autores foram ótimos e meus favoritos também foram os do Rodrigo e do Marcus. Eles souberam muito bem fazer essa mistura da ficção com a realidade. E a edição está incrível.

    Prefácio

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  7. Oi
    sempre leio resenhas positivas desse livro, confesso que não é meu estilo, mas os contos parecem ser interessantes, desses autores eu só li livro de , que bom que gostou da leitura desse livro.

    http://momentocrivelli.blogspot.com/

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  8. nossa eu me lembro de ver esse predio torrado na av do Estado quando criança e sempre perguntar pra minha mãe oq tinha acontecido ali... to super curiosa pra ler esse livro!

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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  9. Oi, Nana!

    Confesso que não sei muito bem se curto a ideia desse livro ou não. Alguns contos foram baseados em eventos reais, mas não é como contar o que aconteceu com o atentado das torres gêmeas, porque nesse caso os autores não estão contando o que de fato aconteceu, e sim tornando o que já é triste em mais sombrio ainda. Então não sei hahaha fico dividida porque os contos parecem mesmo ser ótimos, mas ao mesmo tempo fico só pensando na tragédia que foi o incêndio e como isso por si só já é aterrorizante o suficiente

    xx Carol
    https://caverna-literaria.blogspot.com/

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  10. Oie .Quando eu soube desse livro, pensei que ele era constituído por relatos de pessoas que estiveram lá no incêndio.Depois eu soube que eles pegaram outra linha
    Eu andei lendo tempo atrás sobre o edifico Joelma.Tem muita coisa assustadora 😣Deu um arrepio só de lembrar.

    Beijos

    Meu mundinho quase perfeito

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